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Numa guerra não há vencedores, a Humanidade sempre perde. Ao contrário, no amor não há perdedores, porque não há como cair se você segura a própria mão

Ana Paula Lisboa
9.3.2021

Quando a Rússia jogou a primeira bomba e o exército avançou, eu só pensava neste verso cantado pelo Belo ainda no grupo de pagode Soweto, composição do Chiquinho dos Santos: é tempo de aprender.

A música obviamente não é sobre guerra, é sobre o amor, amor que deu errado, é sobre nunca mais errar como errou da última vez. Chiquinho é um dos maiores compositores do Brasil, muitos pagodes e sambas que nos fizeram chorar desde o fim dos anos 1980 vieram da caneta dele.

Provavelmente foi um homem que, pela primeira vez, disse o ditado agora popular de que no amor e na guerra vale tudo. Eu discordo, mas concordo que a familiaridade do amor e da guerra está no aprendizado. Se você erra sempre da mesma forma, vai perder sempre. Se não aprende com as batalhas, vai ser sempre derrotado.

Numa guerra a gente já havia chegado à conclusão de que não há vencedores, a Humanidade sempre perde. Ao contrário, no amor não há perdedores, porque não há como cair se você segura a própria mão.

Aliás,há sim uma vencedora: as drogas! Um enorme parabéns às drogas, que todos os anos vencem a guerra às drogas. (Contém ironia.)

Eu acho bonito (mais uma ironia) que o Brasil se orgulhe tanto dos imigrantes de olhos azuis fugidos da Segunda Guerra e que ao chegar ao país recebem trabalho remunerado, terra, oportunidade de recomeço e dignidade, como deveria realmente ser. Mas acho incrível mesmo a incapacidade de olhar para o lado e se indignar com as casas de favela cheia de marcas de tiro. Só o preço do barril de petróleo importa, como se o medo diário e constante não impactasse a economia. Eu já disse, meu sonho era que me tratassem da mesma forma como tratam o Mercado, mas a dor que comove tem cor e não é a minha.

Eu sim, sinto a dor de ucranianos e não ucranianos, a dor de deixarem suas casas, suas vidas, suas certezas. Eu, que já fui uma criança refugiada, que já fui uma adulta correspondente de guerra (volte dezenas de colunas)

Eu sim,me preocupo com a possibilidade de ataques atômicos tanto quanto estou estarrecida com o assassinato, pela polícia militar baiana, dos jovens Alexandre dos Santos, Cleberson Guimarães e Patrick Sapucaia no dia 1º de março.

Queria que tivessem o mesmo empenho para entender as questões do Leste Europeu como para entender por que a empreendedora Sara Fonseca foi abordada por um segurança de rua em Ipanema, ou porque sete crianças foram barradas de brincar nos brinquedos do parque de um shopping em São Paulo.

Machado de Assis contou em “Quincas Borba” que talvez o caráter conservador e benéfico da guerra fosse a preservação: “Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz nesse caso, é a destruição. (...) Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”

Mas veja bem, dependendo do tempo que a guerra dure, as batatas já existentes apodrecerão e aí as duas tribos morrerão de fome de qualquer forma. Ou, quem cuida do campo de batatas se estão todos ocupados com a guerra? Batatas serão sempre batatas, já era tempo de aprender.

https://oglobo.globo.com/cultura/quando-russia-jogou-primeira-bomba-pensei-no-soweto-tempo-de-aprender-1-25424224

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