Marcela Pagano afirma que as declarações do presidente argentino não representam seu povo e defende a preservação da amizade histórica entre Brasil e Argentina.
Em um gesto raro na política sul-americana, a deputada argentina Marcela Marina Pagano encaminhou uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo desculpas pelas declarações ofensivas do presidente Javier Milei contra o Brasil.
No documento, a parlamentar faz questão de esclarecer que não fala em nome do Estado argentino, mas como representante eleita pelo povo. Segundo ela, há uma "maioria silenciosa" de argentinos que recebeu com vergonha os ataques dirigidos ao Brasil.
"Venho lhe pedir desculpas. Faço isso com o desconforto de quem pede desculpas por algo que não cometeu, mas com a convicção de que há silêncios que acabam se tornando consentimento."
Ao longo da carta, Pagano destaca que governos são transitórios, enquanto as relações entre os povos permanecem.
"Um Estado não é um governo, e um governo não é um homem. As nações duram mais que os mandatos e, certamente, mais que os destemperos."
A deputada faz um resgate histórico da relação entre Brasil e Argentina, lembrando momentos decisivos da integração bilateral, como o apoio brasileiro à Argentina durante a Guerra das Malvinas, em 1982, a aproximação promovida por José Sarney e Raúl Alfonsín, a criação da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC) e o nascimento do Mercosul.
Segundo ela, nenhuma divergência política circunstancial pode justificar o enfraquecimento de uma parceria construída ao longo de décadas.
Outro ponto enfatizado é a importância econômica da relação entre os dois países. Pagano lembra que o Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina e o maior comprador de produtos industrializados argentinos, sustentando milhares de empregos dos dois lados da fronteira.
Ao final, a parlamentar faz um apelo para que as divergências entre governos não comprometam a amizade entre os povos.
"As ofensas de um homem não devem transformar-se na política de um Estado."
A deputada também assume o compromisso de trabalhar, no Congresso argentino e no Parlasul, pela reconstrução do diálogo institucional entre os dois países.
Encerrando a carta, Pagano afirma que a ponte construída entre Brasil e Argentina ao longo das últimas décadas é mais forte do que qualquer crise política.
"Essa ponte não foi construída por um governo, mas por dois povos que decidiram deixar de temer um ao outro."
A íntegra da carta repercutiu amplamente nas redes sociais e foi recebida como um gesto de defesa da diplomacia e do respeito entre duas das maiores nações da América do Sul.
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