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Mais de 150 pessoas desapareceram no Atlântico tentando alcançar as Ilhas Canárias. Não fugiam em busca de riqueza. Fugiam da fome, da guerra, da miséria, da ausência de futuro. Fugiam daquilo que nós mesmos chamaríamos de insuportável, caso tivéssemos nascido do outro lado do mapa.

O mar apenas concluiu uma sentença que começou em terra.

Vivemos uma época em que o valor da vida passou a depender do CEP, da nacionalidade, da cor da pele e do passaporte. Há mortes que mobilizam chefes de Estado, interrompem programações de TV e despertam solidariedade mundial. Outras se dissolvem nas ondas, transformadas em estatísticas, quase sem comoção.

Os migrantes passaram a ser tratados como um problema antes mesmo de serem reconhecidos como pessoas.

Construímos muros cada vez mais altos, cercas mais inteligentes, sistemas de vigilância mais eficientes. Mas não conseguimos erguer o essencial: a capacidade de enxergar no outro um semelhante.

É curioso. O mundo nunca falou tanto em direitos humanos, inclusão, diversidade e empatia. Ao mesmo tempo, assiste quase impassível a homens, mulheres e crianças desaparecendo no mar porque ousaram acreditar que, em algum lugar, a vida poderia ser menos cruel.

A tragédia não acontece apenas quando um barco afunda.

Ela começa quando governos transformam o desespero em caso de polícia. Quando a imigração passa a ser discutida apenas como ameaça. Quando o medo rende mais votos do que a compaixão.

Não existe travessia segura para quem parte sem alternativas.

Ninguém abandona sua casa, sua língua, seus afetos e sua história para enfrentar semanas em um barco precário por aventura. Faz isso porque permanecer tornou-se ainda mais perigoso do que partir.

É impossível ler que apenas 38 pessoas sobreviveram entre quase 190 passageiros e seguir o dia normalmente. Se isso já não nos causa indignação, talvez o problema não esteja apenas nas políticas migratórias.

Talvez esteja em nós.

A história ensina que a desumanização nunca começa com violência explícita. Ela nasce quando passamos a acreditar que algumas vidas importam menos do que outras. Quando aceitamos que certas mortes são inevitáveis porque acontecem longe dos nossos olhos.

O oceano continuará recebendo embarcações frágeis. Continuará testemunhando sonhos interrompidos. Mas cada corpo que desaparece nas águas leva consigo um pedaço da nossa própria humanidade.

No fim, não é o mar que separa continentes.

É a indiferença que separa seres humanos.


Cidade Sem Filtro
Rosalie Arruda

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