A discussão sobre a desindexação das aposentadorias e dos benefícios sociais voltou a expor uma velha contradição do debate econômico brasileiro. - Quando o assunto é cortar despesas, os olhos de parte do mercado se voltam rapidamente para o bolso dos aposentados e dos trabalhadores. Já quando se fala em rever subsídios bilionários concedidos a empresas ou discutir o volume das emendas parlamentares, o entusiasmo parece bem menor.
A reflexão levantada em torno das ideias do economista André Lara Resende coloca em pauta uma questão crucial para a população brasileira: até que ponto o ajuste fiscal deve ser feito sacrificando a renda e a qualidade de vida do povo de menor poder aquisitivo?
O Brasil precisa, sim, discutir suas contas públicas, seus juros, e principalmente, seus privilégios e a eficiência dos gastos. Mas equilíbrio fiscal não pode ser sinônimo de transferência permanente da conta para quem depende da aposentadoria ou dos programas sociais para viver.
Por que a tesoura costuma encontrar primeiro os direitos sociais, enquanto os privilégios econômicos parecem sempre exigir mais delicadeza?
Reformar as contas públicas é necessário. Escolher quem paga essa conta é uma decisão política. E essa escolha diz muito sobre o projeto de país que se pretende construir.
Cidade Sem Filtro
Rosalie Arruda
