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Barragem de Oiticica começa, enfim, a deixar de ser promessa para se consolidar como realidade concreta no Rio Grande do Norte  e isso muda mais do que os números dos reservatórios.

O crescimento acelerado do volume, que saiu de pouco mais de 14% em fevereiro para 61% em abril, não é apenas um dado técnico. Ele sinaliza uma inflexão histórica em uma região marcada por ciclos de escassez. No Seridó, água sempre foi sinônimo de incerteza; agora, passa a ser um ativo estratégico.

A visita da governadora Fátima Bezerra ao complexo reforça o peso político da obra. Não por acaso. Grandes estruturas hídricas no Nordeste sempre carregaram um duplo papel. Atender demandas reais da população e, ao mesmo tempo, simbolizar capacidade de entrega do poder público. Oiticica entra nesse rol.

Mas há um ponto que merece leitura mais cuidadosa. O discurso oficial já não trata a barragem apenas como solução para o abastecimento humano. A ênfase agora está no desenvolvimento,  agricultura, piscicultura, turismo e até mineração. Isso revela uma mudança de gestão, que agora  sai da lógica emergencial da “falta d’água” para uma agenda de uso econômico da água.

Essa virada, no entanto, traz desafios. A história de grandes obras hídricas no Brasil mostra que infraestrutura, por si só, não garante desenvolvimento automático. É preciso governança, planejamento e políticas complementares para que a água se transforme, de fato, em renda distribuída e não apenas em potencial econômico concentrado.

Outro aspecto relevante é a dependência da integração com o Projeto de Integração do Rio São Francisco. A segurança hídrica prometida para o Seridó não está baseada exclusivamente nas chuvas locais, mas em um sistema mais amplo e interligado. Isso fortalece a resiliência, mas também exige manutenção contínua e coordenação federativa.

Até mesmo a presença das chamadas “baronesas” no espelho d’água, embora tratada como fenômeno natural, funciona como alerta ambiental. O acúmulo de matéria orgânica e o uso do solo no entorno dos rios mostram que a gestão da água não termina na barragem, ela começa muito antes, na bacia hidrográfica.

No fim, Oiticica representa um marco, mas não um ponto final. É uma obra que inaugura possibilidades.  O sucesso dela será medido menos pelo volume armazenado e mais pela capacidade do estado de transformar essa água em qualidade de vida concreta, de forma equilibrada e sustentável.

Se antes o desafio era conviver com a seca, agora passa a ser  saber o que fazer com a abundância relativa que começa a surgir.

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