A novela da drenagem de Ponta Negra ganhou mais um capítulo — e desta vez com o Ministério Público Federal entrando em cena para perguntar o óbvio: como alguém decide “engordar” a praia antes de resolver para onde vai a água da chuva?
O MPF ajuizou ação civil pública contra a Prefeitura do Natal cobrando obras emergenciais e a reestruturação completa do sistema de drenagem da orla. Segundo o órgão, a praia virou um retrato de improviso caro: alagamentos constantes, água misturada com esgoto, erosão ameaçando o Morro do Careca e a recém-criada faixa de areia sendo levada embora pelas chuvas.
Enquanto turistas desviam de lagoas improvisadas em pleno cartão-postal da cidade, a prefeitura resolveu priorizar concurso para projeto de paisagismo e urbanização da orla. Afinal, aparentemente, no planejamento tropical da gestão, primeiro vem o deck instagramável — depois se descobre onde escoa a água.
Na ação, os procuradores Ilia Freire, Victor Mariz e Camões Boaventura classificam a situação como uma “gravíssima crise socioambiental e técnica”. Traduzindo do juridiquês: fizeram uma obra milionária sem resolver o básico.
O MPF pede, em caráter urgente, limpeza semanal de bocas de lobo e dissipadores, isolamento de áreas de risco e até suspensão de novas licenças urbanísticas até que a drenagem funcione de verdade — conceito revolucionário em Natal: obra pública concluída com infraestrutura operando.
Os estudos técnicos anexados ao processo revelam um cenário digno de engenharia criativa versão caos: galerias bloqueadas com concreto e pedras, dissipadores que não dissipam e estruturas incapazes de suportar períodos de chuva. Resultado: a água corre direto para a base do Morro do Careca, arrastando areia, destruindo cercas e ameaçando encurtar a vida útil da “engorda”.
O detalhe mais constrangedor é que o MPF afirma ter tentado diversas vezes acessar documentos técnicos da obra, mas esbarrou na dificuldade clássica da administração pública brasileira: encontrar os papéis parece mais difícil do que conter a erosão marítima.
Agora, além da cobrança por obras emergenciais, o município pode enfrentar multa diária de R$ 5 mil e indenização mínima de R$ 500 mil por danos morais coletivos.
No fim, fica a impressão de que Ponta Negra virou um laboratório caro de como transformar uma solução turística em problema hidráulico. Porque areia nova até apareceu. O que sumiu foi a drenagem.

