A jornalista Laurita Arruda, Territorio Livre, trouxe à tona uma discussão que vai muito além da indicação da primeira suplência ao Senado.
É verdade que a política tem um talento especial para transformar os mais ferozes críticos em praticantes daquilo que antes condenavam. Talvez seja esse o maior teste de coerência de um homem público, resistir às facilidades que o poder oferece.
Styvenson Valentim construiu sua carreira justamente dizendo que era diferente. E convenceu muita gente. Eleito senador em 2018, surfou na onda da renovação, apontando o dedo para as velhas práticas, os acordos de bastidores, os conchavos e o patrimonialismo que há décadas contaminam a política brasileira.
Pois eis que chega 2026.
O senador deverá anunciar como primeira suplente ninguém menos que sua irmã, Anne Kelly Valentim.
Legal? Sem dúvida.
Moralmente aceitável? Cada eleitor terá sua resposta.
Politicamente simbólico? Sem a menor dúvida.
A suplência no Senado nunca foi um cargo qualquer. É uma espécie de herança política preventiva. Quem ocupa a vaga pode assumir um mandato de oito anos sem receber um único voto, bastando que o titular se afaste. E Styvenson, apontado como favorito à reeleição e potencial candidato ao Governo em 2030, sabe muito bem disso.
Não deixa de ser curioso. Durante anos, o senador se apresentou como antítese da política familiar. Agora, entrega justamente à família o bilhete premiado da suplência.
É aquela velha máxima: a política muda as pessoas ou apenas revela aquilo que elas sempre foram?
Há outro detalhe que torna a escolha ainda mais emblemática. Em 2020, foi o próprio Styvenson quem expôs publicamente a irmã por ter recebido o auxílio emergencial durante a pandemia. Disse que não faria distinção entre familiares e desconhecidos. Pregou rigor, transparência e igualdade de tratamento.
Seis anos depois, a irmã deixa de ser apenas uma cidadã comum para ocupar um dos postos de maior confiança política do senador.
A vida realmente dá voltas.
Os defensores dirão que confiança não se terceiriza. Que ninguém é mais confiável do que um irmão. É um argumento legítimo.
Mas também era legítimo esperar que alguém que fez da crítica ao compadrio uma bandeira procurasse um caminho que evitasse qualquer sombra de privilégio familiar.
No fim das contas, talvez Laurita Arruda tenha captado o que realmente importa nessa história. A notícia não é apenas quem será a suplente. A notícia é o simbolismo da escolha.
Porque a velha política nem sempre chega de terno amarrotado, cercada de caciques e coronéis. Às vezes ela bate à porta com um sobrenome conhecido, entra pela sala e se acomoda naturalmente à mesa da família.
E então o eleitor percebe que, na política, o discurso costuma viajar em classe executiva. A coerência, quase sempre, vai no bagageiro.
leia Laurita Arruda; https://www.instagram.com/blogterritoriolivre/
Rosalie Arruda
Cidade Sem Filtro

