Home



Mais pontes, menos arrogância

A carta da deputada argentina Marcela Pagano merece ser lida por todos aqueles que acreditam que a diplomacia ainda tem espaço na política. Em meio a um ambiente de hostilidade criado pelo presidente Javier Milei, a parlamentar demonstra que é possível discordar sem ofender e defender convicções sem transformar adversários em inimigos.

Milei parece governar as relações internacionais como se estivesse em um palanque permanente. Troca a liturgia da diplomacia por provocações, confunde convicção com grosseria e acredita que a política externa pode ser conduzida por meio de insultos e confrontos pessoais. Esse comportamento pode agradar parte de sua base eleitoral, mas empobrece o debate e fragiliza a posição institucional da Argentina.

A resposta de Marcela Pagano segue o caminho oposto. Ela lembra que presidentes são passageiros; as nações permanecem. Brasil e Argentina construíram uma relação estratégica ao longo de décadas, baseada em cooperação, comércio, integração regional e respeito mútuo. Nenhum governante tem o direito de colocar esse patrimônio em risco por impulsos ideológicos ou disputas de ego.

A deputada faz um gesto raro na política contemporânea: reconhece que as palavras de um chefe de Estado têm consequências e que o silêncio diante delas também cobra um preço. Ao pedir desculpas ao povo brasileiro, não demonstra submissão, mas maturidade política. Defende a imagem da Argentina, preserva a dignidade das instituições e reafirma que o povo argentino não pode ser confundido com o temperamento de um único governante.

A América do Sul precisa de líderes que construam pontes, não de incendiários que colecionam manchetes. Divergências entre governos são naturais; transformar essas diferenças em ofensas pessoais é um desserviço à integração regional.

Marcela Pagano mostrou que ainda há vozes na política argentina capazes de compreender uma verdade elementar: respeito entre nações não é sinal de fraqueza. É demonstração de grandeza. E é justamente dessa grandeza que a política sul-americana tanto necessita.

Cidade Sem Filtro
Rosalie Arruda

Poste um comentário

comente aqui..