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Quatro candidatos participaram do debate — Foto: Band RN/Reprodução

O primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Rio Grande do Norte mostrou que a campanha de 2026 já entrou naquela fase em que ninguém quer deixar o adversário falar muito sobre o futuro, porque o passado de cada um parece oferecer munição mais abundante.

A questão que ficou evidenciada é que, quando chegou a hora de explicar por que cada um deveria ser escolhido para governar o Estado, as respostas perderam um pouco da contundência que sobrava nas acusações.

Allyson Bezerra foi quem mais sentiu o peso desse roteiro. A Operação Mederi apareceu repetidamente e obrigou o prefeito de Mossoró a ocupar boa parte do seu tempo tentando responder aos questionamentos dos adversários. A estratégia de apresentar o gestor que fez, realizou e pretende fazer mais acabou dividindo espaço com a necessidade de explicar uma investigação que, politicamente, seus adversários sabem que pode incomodar.

Robério Paulino não desperdiçou a oportunidade. Chamou Allyson de “ator” e disse que o prefeito estaria “farmando aura” pelo Estado. A frase ganhou vida própria nas redes e provavelmente rendeu ao candidato do PSOL mais cortes de vídeo do que qualquer proposta apresentada naquela noite. Política contemporânea provoca isso. Uma boa frase circula mais rápido do que um bom plano de governo.

Mas há uma questão mais séria por trás da provocação. Allyson entrou no debate tentando consolidar uma imagem de gestor eficiente e saiu tendo de administrar uma pauta que não estava sob seu controle. 

Cadu Xavier enfrentou um problema diferente. Sua ligação com Lula e com o governo Fátima Bezerra foi explorada pelos adversários e, curiosamente, também foi um dos assuntos que mais mobilizaram as buscas na internet, com o termo “Cadu de Lula” aparecendo entre os mais procurados durante o debate.

A associação pode ser eleitoralmente valiosa, sobretudo para quem acredita na força da marca Lula no Estado. Mas também coloca Cadu diante de uma pergunta que a campanha não poderá evitar por muito tempo: onde termina Lula, onde termina Fátima e começa Cadu?

Defender a continuidade de um projeto é legítimo. O eleitor, entretanto, precisa saber o que exatamente será continuado, o que será corrigido e, principalmente, o que será feito de diferente. Se a candidatura depender demais da popularidade de seus padrinhos políticos, corre o risco de transformar o candidato em coadjuvante da própria campanha.

Álvaro Dias chegou ao debate com uma vantagem que nenhum dos outros possui na mesma medida: experiência. Foi prefeito de Natal, conhece a máquina pública e tem uma longa trajetória política. Poderia ter usado esse patrimônio para apresentar uma visão mais abrangente para o Estado. Em alguns momentos, entretanto, ficou preso ao embate direto com os adversários e ao controle do relógio, que não pareceu ser exatamente seu melhor aliado naquela noite.

Na educação, uma resposta acabou chamando mais atenção do que talvez desejasse. Ao ser confrontado sobre o desempenho de Natal no IDEB, admitiu que os resultados de sua gestão “ficaram deixando a desejar”. A sinceridade é sempre melhor do que a tentativa de maquiar um problema, mas, em uma campanha eleitoral, cada admissão vem acompanhada de uma pequena multidão de adversários prontos para transformá-la em material de propaganda.

Robério Paulino, por sua vez, parece ter compreendido melhor do que os demais a linguagem das redes. Entrou no confronto disposto a provocar e conseguiu. Foi agressivo, escolheu seus alvos e produziu frases que renderam repercussão. O problema é que eleição para governador não é um concurso de melhores cortes para Instagram.

 O futuro do Rio Grande do Norte apareceu menos do que deveria. Saúde, educação, segurança, infraestrutura, desenvolvimento econômico e geração de emprego estiveram presentes, mas muitas vezes atravessados por discussões sobre quem fez errado, quem não fez, quem deve explicações e quem é aliado de quem.

Nas redes, naturalmente, cada torcida escolheu seu vencedor. É assim desde que inventaram as redes sociais e, antes delas, os comícios. O candidato que perdeu para a militância adversária quase sempre ganhou na própria bolha.

Mas existe uma parcela silenciosa do eleitorado que não participa das torcidas organizadas da política. Esse eleitor observa, compara e espera. Não está necessariamente interessado em saber quem deu a melhor resposta ou quem conseguiu humilhar o adversário em 30 segundos. 

Quer saber quem vai melhorar a saúde, organizar as contas, enfrentar a violência, recuperar a educação, atrair investimentos e fazer o Estado funcionar.

É esse eleitor que ainda precisa ser conquistado.

O debate terminou sem um vencedor absoluto e, principalmente, sem uma candidatura capaz de dizer ao eleitor, de forma incontestável, “é por isso que eu devo governar o Rio Grande do Norte”.

A campanha ainda terá muitos debates, muitas promessas, muitas pesquisas e, certamente, muitos vídeos cuidadosamente editados para as redes.

Até lá, fica uma recomendação aos candidatos! Se preocupem  menos  em provar que o outro não serve e mais disposição para explicar por que vocês servem.

Porque atacar adversário rende aplauso da plateia.

Governar, infelizmente, exige apresentar a conta.

Cidade Sem Filtro
Por Rosalie Arruda

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