O Departamento de Guerra dos Estados Unidos — antigo Departamento de Defesa — acaba de colocar US$ 750 milhões, cerca de R$ 3,9 bilhões, na estrutura que vai comprar toda a produção da primeira fase da mina Pela Ema, em Minaçu, Goiás.
Não é um investimento qualquer. É dinheiro do governo americano para garantir acesso a um mineral considerado estratégico para a indústria e para a segurança nacional dos Estados Unidos.
Washington está dizendo, com dinheiro, contratos de longo prazo e garantia de preços, que as terras raras brasileiras são estratégicas.
E o Brasil? O que está dizendo?
Essa talvez seja a pergunta mais importante dessa operação.
Para os americanos, a mina de Minaçu não é simplesmente uma jazida. É uma peça da estratégia para reduzir a dependência da China, que domina boa parte da cadeia mundial de terras raras, especialmente o refino e o processamento.
O contraste é revelador. Os Estados Unidos estão comprando segurança de abastecimento; o Brasil está vendendo produção.
É claro que o país ganha com a operação. Há investimento, empregos, arrecadação, desenvolvimento regional e a valorização de um ativo mineral de enorme importância. Minaçu ganha visibilidade internacional e Goiás passa a ocupar uma posição relevante numa disputa global por minerais críticos.
Mas a questão não termina na mina.
Ela começa justamente ali.
A produção brasileira será transformada inicialmente em carbonato misto de terras raras. As etapas mais sofisticadas da cadeia, separação dos óxidos, metalização, produção de ligas e fabricação de ímãs, estão previstas para outros países.
E é nesse ponto que o Brasil precisa prestar atenção.
Porque existe uma diferença enorme entre possuir a riqueza mineral e dominar a riqueza econômica produzida por ela.
O Departamento de Guerra americano entendeu isso e está ajudando a construir uma cadeia de suprimentos que vai da mina brasileira à indústria americana.
O Brasil deveria fazer o mesmo, ou seja, transformar a enorme vantagem geológica em vantagem industrial. A operação pode ser uma oportunidade. Mas será necessário exigir mais processamento em território nacional, tecnologia, pesquisa, formação de mão de obra e produção de bens de maior valor agregado.
A futura decisão sobre uma planta de separação de óxidos no Brasil, prevista para ser avaliada em 2027, será especialmente importante. É nesse estágio que o país pode começar a capturar uma parcela maior do valor gerado pelas terras raras.
Não se trata de impedir o capital estrangeiro. Nem de escolher entre Estados Unidos e China. Trata-se de escolher o Brasil.
Se Washington considera a mina brasileira estratégica para sua indústria e sua defesa, Brasília deveria considerar as terras raras estratégicas para o desenvolvimento industrial brasileiro.
O país possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo. O que ainda não possui é uma cadeia industrial à altura dessa riqueza.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas quanto os americanos estão investindo em Minaçu.
Deveria ser quanto desse investimento o Brasil conseguirá transformar em tecnologia, indústria, empregos qualificados e riqueza nacional.
Porque o risco é bastante conhecido. O Brasil entra com a terra, o minério e a riqueza natural; outros entram com capital, tecnologia e indústria e ficam com a maior parte do valor.
E essa parte da história ainda está para ser escrita.
