O caso Banco Master ganhou contornos de um daqueles quebra-cabeças em que cada nova peça levanta duas perguntas: quem sabia e quem ganhou?
Mas, no jornalismo, uma coisa é investigação. Outra é prova. E essa diferença precisa ser respeitada.
Já está documentado que regimes próprios de previdência de estados e municípios colocaram cerca de R$ 1,87 bilhão em títulos do Master. A Polícia Federal abriu investigações sobre essas operações. No Amapá, foram aproximadamente R$ 400 milhões; em Maceió, cerca de R$ 97 milhões; e São Roque (SP) aplicou algo em torno de R$ 93 milhões. O caso de São Roque, inclusive, continua sendo analisado por uma CPI municipal.
No Rio de Janeiro, a história é ainda mais pesada.
O Rioprevidência investiu R$ 970 milhões em letras financeiras do Banco Master. Documentos oficiais do próprio fundo confirmam a existência desses títulos em sua carteira.
E o Ministério Público do Rio já foi além da simples investigação jornalística. Em abril deste ano, ajuizou ação contra o Banco Master, o Rioprevidência, o Estado e outros envolvidos, apontando risco de prejuízo superior a R$ 1 bilhão e pedindo medidas para recuperar os recursos.
Também há documentos mostrando que o Master foi formalmente credenciado pelo Rioprevidência em outubro de 2023, tornando-se instituição apta, segundo o próprio fundo, a realizar determinadas operações com recursos previdenciários.
Até aqui, portanto, não estamos falando de boato.
O ponto que exige cautela é outro.
Circula a informação de que a Polícia Federal já teria identificado uma rede de operadores, intermediários e autoridades beneficiadas em seis estados, com pagamento de “success fees” que poderiam chegar a 10% dos valores captados.
Essa parte precisa ser tratada como informação atribuída a fonte da investigação, e não como fato definitivamente comprovado.
Há, sim, elementos públicos que dão materialidade à investigação sobre intermediários. O nome de Ricardo Siqueira Rodrigues aparece associado às apurações envolvendo o Rioprevidência. Também existem referências a articulações políticas e a comissões relacionadas à captação.
Mas uma coisa é provar a existência de um intermediário e de uma comissão. Outra, bem diferente, é provar uma rede nacional de corrupção, identificar todos os beneficiários e estabelecer que cada investimento previdenciário foi resultado de propina.
É justamente aí que mora a diferença entre uma investigação explosiva e uma condenação.
O caso do Banco Master ainda está sendo montado pelas autoridades. A própria Polícia Federal não comenta investigações em andamento.
E talvez seja essa a parte mais importante da história! O dinheiro público já está contabilizado; os investimentos também; os intermediários estão aparecendo; os prejuízos estão sendo calculados. O que ainda falta é saber, com provas, quem abriu cada porta, quem recebeu por ela e quem autorizou que o dinheiro dos aposentados entrasse.
No fim, o grande escândalo não será apenas descobrir quanto o Master perdeu.
Será descobrir quanto custou para convencer gestores públicos a confiar o dinheiro da aposentadoria de milhões de brasileiros a uma instituição que acabou no centro de uma das maiores crises financeiras do país.
