Quase metade das famílias brasileiras recusa a doação; especialistas explicam por que informação e diálogo podem mudar esse cenário
A doação de órgãos ainda enfrenta um obstáculo que vai além da falta de órgãos disponíveis: o medo, os preconceitos e a desinformação que cercam o processo. Em 2025, 45% das famílias entrevistadas no Brasil recusaram a doação de órgãos, segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Foram 4.200 recusas no ano.
Ao mesmo tempo, o país registrou 4.321 doadores efetivos, o maior número já alcançado. Os dados mostram a dimensão do desafio. Mesmo quando existe um potencial doador, a doação depende de uma sequência de etapas médicas, da avaliação dos órgãos e, nos casos de morte encefálica, da autorização da família.
Para especialistas do Hospital Sírio-Libanês, parte da resistência está relacionada ao desconhecimento sobre o que acontece depois da confirmação da morte encefálica.
Morte encefálica não é coma
Um dos principais pontos de desinformação envolve a própria definição de morte encefálica. Segundo o Ministério da Saúde, ela representa a perda completa e irreversível das funções encefálicas e caracteriza a morte da pessoa.
Mesmo que o coração continue batendo com o auxílio de aparelhos, não se trata de coma ou de uma situação em que exista possibilidade de recuperação cerebral. O diagnóstico segue um protocolo específico, com avaliação clínica e exames complementares.
“Quando ocorre a morte encefálica e o paciente não tenha deixado autorização em vida, precisamos conversar com a família e obter a autorização para a doação”, explica Sérgio Arap, cirurgião de cabeça e pescoço e presidente da Comissão Intra-Hospitalar de Transplantes do Sírio-Libanês.
Um dos principais pontos de desinformação envolve a própria definição de morte encefálica. Segundo o Ministério da Saúde, ela representa a perda completa e irreversível das funções encefálicas e caracteriza a morte da pessoa.
Mesmo que o coração continue batendo com o auxílio de aparelhos, não se trata de coma ou de uma situação em que exista possibilidade de recuperação cerebral. O diagnóstico segue um protocolo específico, com avaliação clínica e exames complementares.
“Quando ocorre a morte encefálica e o paciente não tenha deixado autorização em vida, precisamos conversar com a família e obter a autorização para a doação”, explica Sérgio Arap, cirurgião de cabeça e pescoço e presidente da Comissão Intra-Hospitalar de Transplantes do Sírio-Libanês.
Medo de que o corpo não seja respeitado
Outro preconceito está relacionado à forma como o corpo será tratado após a retirada dos órgãos. A cirurgia é realizada em centro cirúrgico por equipes especializadas. Depois, o corpo é recomposto e entregue à família. O doador pode ser velado e sepultado normalmente, sem necessidade de cuidados especiais. A retirada dos órgãos, portanto, não impede os rituais de despedida.
Outro preconceito está relacionado à forma como o corpo será tratado após a retirada dos órgãos. A cirurgia é realizada em centro cirúrgico por equipes especializadas. Depois, o corpo é recomposto e entregue à família. O doador pode ser velado e sepultado normalmente, sem necessidade de cuidados especiais. A retirada dos órgãos, portanto, não impede os rituais de despedida.
Também existe a percepção de que a família poderia decidir quem receberá os órgãos ou que o hospital teria influência direta nessa escolha. Não é assim. A distribuição é feita pelo Sistema Nacional de Transplantes, seguindo critérios previamente estabelecidos, como compatibilidade, gravidade da doença, tempo de espera e características específicas de cada modalidade de transplante.
Em 2025, o Brasil realizou 6.697 transplantes de rim, 2.573 de fígado, 427 de coração, 96 de pulmão e 142 de pâncreas.
Em 2025, o Brasil realizou 6.697 transplantes de rim, 2.573 de fígado, 427 de coração, 96 de pulmão e 142 de pâncreas.
Nem todo órgão pode ser aproveitado
Outra informação importante é que autorizar a doação não significa que todos os órgãos serão necessariamente utilizados. Em 2025, 2.957 potenciais doadores tiveram a doação inviabilizada por contraindicação médica e outros 1.038 casos foram interrompidos por parada cardíaca, segundo a ABTO.
Depois da retirada, ainda existe uma corrida contra o tempo. O órgão precisa ser preservado e transportado até o receptor dentro de um período limitado. A referência é de aproximadamente quatro horas para o coração, quatro a seis horas para o pulmão, até 12 horas para fígado e pâncreas e até 48 horas para o rim.
Para a enfermeira Catherina Gameiro, do Sírio-Libanês, a família precisa primeiro compreender e assimilar a morte antes de ser abordada sobre a doação. “Nosso papel é oferecer informação, acolhimento e liberdade para que aquela decisão seja tomada sem pressão”, afirma.
Por isso, especialistas defendem que a conversa sobre doação não deveria começar apenas no momento da morte. Falar sobre o assunto em vida permite que a família conheça a vontade da pessoa e reduz dúvidas e conflitos em uma situação já marcada pela dor.
Um único doador pode beneficiar até oito pessoas. Mas, antes de chegar ao transplante, é preciso vencer uma série de barreiras, entre elas, o desconhecimento sobre como a doação realmente funciona.
No fim, uma decisão tomada em meio ao luto pode representar a possibilidade de uma nova vida para quem espera por um órgão.
Outra informação importante é que autorizar a doação não significa que todos os órgãos serão necessariamente utilizados. Em 2025, 2.957 potenciais doadores tiveram a doação inviabilizada por contraindicação médica e outros 1.038 casos foram interrompidos por parada cardíaca, segundo a ABTO.
Depois da retirada, ainda existe uma corrida contra o tempo. O órgão precisa ser preservado e transportado até o receptor dentro de um período limitado. A referência é de aproximadamente quatro horas para o coração, quatro a seis horas para o pulmão, até 12 horas para fígado e pâncreas e até 48 horas para o rim.
Para a enfermeira Catherina Gameiro, do Sírio-Libanês, a família precisa primeiro compreender e assimilar a morte antes de ser abordada sobre a doação. “Nosso papel é oferecer informação, acolhimento e liberdade para que aquela decisão seja tomada sem pressão”, afirma.
Por isso, especialistas defendem que a conversa sobre doação não deveria começar apenas no momento da morte. Falar sobre o assunto em vida permite que a família conheça a vontade da pessoa e reduz dúvidas e conflitos em uma situação já marcada pela dor.
Um único doador pode beneficiar até oito pessoas. Mas, antes de chegar ao transplante, é preciso vencer uma série de barreiras, entre elas, o desconhecimento sobre como a doação realmente funciona.
No fim, uma decisão tomada em meio ao luto pode representar a possibilidade de uma nova vida para quem espera por um órgão.
