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Sem maiores explicações, o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, determinou a transferência do padre Júlio Lancellotti da Paróquia São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, onde ele atuava há cerca de 40 anos. A decisão causa estranhamento, sobretudo por ter sido tomada a poucos meses de sua aposentadoria e comunicada de forma fria e distante, por meio de uma carta recebida na última quarta-feira (10).

Além da transferência, a comunicação impõe ao sacerdote a proibição do uso de redes sociais e a suspensão das transmissões online das missas dominicais, que vinham alcançando milhares de fiéis, presencialmente e pela internet.

É inevitável questionar os motivos dessa atitude. A popularidade — mais do que merecida — do padre Júlio parece incomodar. Seu trabalho pastoral sempre ultrapassou os limites do templo, alcançando aqueles que vivem à margem da sociedade. Tornou-se uma das vozes mais importantes na defesa da população em situação de rua em São Paulo, por meio da Pastoral do Povo da Rua, referência nacional em cuidado, acolhimento e dignidade.

Entre suas iniciativas mais recentes está a Biblioteca Wilma Lancellotti, inaugurada no bairro do Belém, com mais de três mil livros doados e voltada ao atendimento de pessoas em situação de rua. Tive a honra de ser nomeada madrinha desse projeto, que simboliza exatamente o que Padre Júlio representa: acesso, humanidade e esperança.

Infelizmente, não é a primeira vez que ele é atacado. Já foi alvo de políticos inescrupulosos e, agora, parece sofrer retaliações vindas da própria cúpula da Igreja. A história mostra que religiosos comprometidos com o povo, com a justiça social e com os valores humanos — afeto, igualdade, simplicidade, solidariedade e abnegação — quase sempre enfrentam perseguições. Quando não são acusados, são silenciados.

Privar Padre Júlio do exercício pleno de sua missão é privar milhares de pessoas do cuidado, do acolhimento e do amor ao próximo que ele pratica diariamente. Ainda assim, sua obra permanece, e seu exemplo segue mais forte do que qualquer tentativa de apagamento.

Viva Padre Júlio Lancellotti.
Ele me representa — pela bondade, pela cidadania e pela incansável dedicação aos que mais precisam.

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